16 de set. de 2014

Qualificação e Competencias

Qualificação e Competências: uma distinção necessária

Estabelecer as necessárias distinções entre qualificação e competência, 
é o primeiro passo para determinar os limites da certificação. 
A qualificação, conforme lembram Fleury e Fleury , é usualmente definida pelos “requisitos associados à posição, ou ao cargo, ou pelos saberes ou estoque de conhecimentos da pessoa, os quais podem ser classificados e certificados pelo sistema educacional. 
Já o conceito de competência procura ir além do conceito de qualificação”.

Ruas resgata a idéia de que as discussões sobre competências, na sua dimensão individual, têm sua noção associada aos conceitos de qualificação. Há que se analisarem, entretanto, os diferentes contextos de ambos os debates, o primeiro marcado pela presença de empresas mais modernas, caracterizadas por diferentes formas de vínculo, e o segundo por um quadro de emprego formal, trabalho predominantemente industrial e forte base sindical. 
Isso se reforça com o debate que caracteriza os anos de 1960 a 1980, 
por meio dos estudos de Braverman  e Freyssenet dentre outros, contextualizado num cenário de emprego formal, basicamente industrial, cuja noção de qualificação era “centrada na preparação de capacidades voltadas 
para processos previstos ou pelo menos previsíveis em sua maioria” .

O conceito de qualificação, dessa forma, vem sendo substituído pelo de competências devido à crise do posto de trabalho que impossibilita um sistema de remuneração e definição de cargos mais rígidos. 
De um lado, a discussão referente à qualificação remetia a um processo de trabalho fragmentado, de atividades parceladas e que exigiam do trabalhador somente a execução mecânica e padronizada de tarefas. 
Por outro lado, as abordagens referentes ao modelo de competências pressupõem, em última instância, a possibilidade de revisão e superação deste modelo baseado no parcelamento das tarefas, tendo em vista a prevalência de relações de trabalho mais flexíveis no mundo .
A partir dos anos 1990 e com o processo de reestruturação produtiva em curso, a noção de competências passa a tratar de forma predominante do “desenvolvimento de capacidades que podem ser posteriormente mobilizadas em situações em sua maioria pouco previsíveis” RUAS, 2005.

Analisando o caso da França, Le Boterf discute a distinção entre qualificação e competência, insere ainda as noções de profissão e profissionalismo e indica que a perspectiva da qualificação remete a “um julgamento oficial e legitimado que reconhece em uma, ou em várias pessoas capacidades requeridas para exercer uma profissão, um emprego ou uma função”, que se reveste de um caráter convencional. 
Afirma ainda que, quando a qualificação se reduz a diplomas de formação inicial, isso não significa que a pessoa saiba agir com competência
O autor destaca que não se deve opor qualificação e competência, e nem substituir a qualificação pela competência. 
Esta última deve permitir o enriquecimento da noção de qualificação.
Tradicionalmente, o conceito de qualificação tem-se associado aos aspectos de formação do trabalhador, incluindo a educação escolar, a formação técnica e a experiência profissional. 
Nesse sentido, até alguns anos atrás, a obtenção de títulos acadêmicos e de remuneração, e promoções significativas ao longo da vida profissional eram formas visíveis de reconhecimento da capacidade de trabalho, do saber fazer em termos de atividade laboral.
Sob a perspectiva das competências este conceito se torna menos consistente, tendo em vista a necessidade de que se reconheça não apenas 
a escolarização formal e a posição profissional,mas também a capacidade do indivíduo de mobilizar seu saber para a resolução de problemas e situações postas no cotidiano, com a superação das incertezas decorrentes da atividade de trabalho.

Não basta somente a educação formal, 
pois pesam sobre o reconhecimento da competência, inclusive por meio da sua certificação, elementos como as relações sociais estabelecidas, capacidade política de ação e intervenção, componentes subjetivos do trabalhador como pessoa, além dos conhecimentos tácitos, não manifestos.

Fonte
 Interfaces entre Qualificação, Trabalho e Certificação de Competências: 
um Debate em Aberto a partir da Análise das Diretrizes Curriculares Nacionais

Nenhum comentário:

Postar um comentário