Qualificação
e Competências: uma distinção necessária
Estabelecer
as necessárias distinções entre qualificação e competência,
é o primeiro passo
para determinar os limites da certificação.
A qualificação, conforme lembram
Fleury e Fleury , é usualmente definida pelos “requisitos
associados à posição, ou ao cargo, ou pelos saberes ou estoque de conhecimentos
da pessoa, os quais podem ser classificados e certificados pelo sistema
educacional.
Já o conceito de competência procura ir além do conceito de
qualificação”.
Ruas resgata a idéia de que as discussões sobre competências, na sua dimensão
individual, têm sua noção associada aos conceitos de qualificação. Há que se analisarem,
entretanto, os diferentes contextos de ambos os debates, o primeiro marcado
pela presença de empresas mais modernas, caracterizadas por diferentes formas
de vínculo, e o segundo por um quadro de emprego formal, trabalho
predominantemente industrial e forte base sindical.
Isso se reforça com o
debate que caracteriza os anos de 1960 a 1980,
por meio dos estudos de
Braverman e Freyssenet , dentre outros, contextualizado num
cenário de emprego formal, basicamente industrial, cuja noção de qualificação
era “centrada na preparação de capacidades voltadas
para processos previstos ou
pelo menos previsíveis em sua maioria” .
O
conceito de qualificação, dessa forma, vem sendo substituído pelo de
competências devido à crise do posto de trabalho que impossibilita um sistema
de remuneração e definição de cargos mais rígidos.
De um lado, a discussão
referente à qualificação remetia a um processo de trabalho fragmentado, de
atividades parceladas e que exigiam do trabalhador somente a execução mecânica
e padronizada de tarefas.
Por outro lado, as abordagens referentes ao modelo de
competências pressupõem, em última instância, a possibilidade de revisão e
superação deste modelo baseado no parcelamento das tarefas, tendo em vista a prevalência
de relações de trabalho mais flexíveis no mundo .
A partir dos anos 1990 e com o processo de reestruturação produtiva
em curso, a noção de competências passa a tratar de forma predominante do “desenvolvimento
de capacidades que podem ser posteriormente mobilizadas em situações em sua
maioria pouco previsíveis” RUAS, 2005.
Analisando
o caso da França, Le Boterf discute a distinção entre qualificação
e competência, insere ainda as noções de profissão e profissionalismo e indica que
a perspectiva da qualificação remete a “um julgamento oficial e legitimado que
reconhece em uma, ou em várias pessoas capacidades requeridas para exercer uma
profissão, um emprego ou uma função”, que se reveste de um caráter
convencional.
Afirma ainda que, quando a qualificação se reduz a diplomas de
formação inicial, isso não significa que a pessoa saiba agir com competência.
O
autor destaca que não se deve opor qualificação e competência, e nem substituir
a qualificação pela competência.
Esta última deve permitir o enriquecimento da
noção de qualificação.
Tradicionalmente,
o conceito de qualificação tem-se associado aos aspectos de formação do
trabalhador, incluindo a educação escolar, a formação técnica e a experiência profissional.
Nesse sentido, até alguns anos atrás, a obtenção de títulos acadêmicos e de remuneração,
e promoções significativas ao longo da vida profissional eram formas visíveis de
reconhecimento da capacidade de trabalho, do saber fazer em termos de atividade
laboral.
Sob
a perspectiva das competências este conceito se torna menos
consistente, tendo em vista a necessidade de que se reconheça não apenas
a
escolarização formal e a posição profissional,mas também a capacidade do
indivíduo de mobilizar seu saber para a resolução de problemas e situações
postas no cotidiano, com a superação das incertezas decorrentes da atividade de
trabalho.
Não
basta somente a educação formal,
pois pesam sobre o reconhecimento da competência, inclusive por meio da sua certificação, elementos como as relações sociais estabelecidas, capacidade política de ação e intervenção, componentes subjetivos do trabalhador
como pessoa, além dos conhecimentos tácitos, não manifestos.
Fonte
Interfaces entre Qualificação, Trabalho e Certificação de Competências:
um
Debate em Aberto a partir da Análise das Diretrizes Curriculares Nacionais
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