O
Debate entre Formação e Trabalho
O
uso inadequado do sistema de gestão por competências por parte das instituições
tem ocorrido de forma constante e torna-se motivo de investigação. Tal fato
poderia ser explicado, em princípio, em
função da ausência de domínio
conceitual sobre essa nova abordagem,conforme destacado por Ruas (2005).
Ou,
ainda, em função das condições de precarização do trabalho,
fazendo crer que a
implementação do sistema se transforme,
equivocadamente ou não,
em instrumento
de pressão sobre o trabalhador e sua individualização.
Marcando
as conseqüências das novas formas de organização do trabalho, como lembra
Dedecca (1996, p.70), há
“uma individualização do universo produtivo que é
acompanhada da concorrência ativa entre trabalhadores...”,
o pagamento por
desempenho,
além de problemas e perturbações de ordem física e emocional
advindos das mudanças de horários na jornada de trabalho.
Os trabalhadores
tornam-se fragilizados em sua competência e solidariedade coletiva.
Neste
sentido, a certificação seria uma maneira ainda mais “oficial”
de formalizar a
individualização com a disputa por ganhos
que não privilegiam o coletivo.
Beck
(2000) também discute a questão da individualização,
para além da perda de
poder de representação pelos sindicatos, e mais relacionado com a transferência
das responsabilidades para o indivíduo. Segundo o autor, a individualização
envolve três aspectos:
as biografias deixam de ser padronizadas e passam a ser
realizadas em um modelo do tipo faça você sozinho; o trabalho é fragmentado
pelo tempo e contrato; individualização do consumo, ou seja,
emergem também
produtos e mercados individualizados.
Apesar
das demandas sindicais e,
ao contrário da experiência internacional, no Brasil,
a formação profissional nunca foi objeto prioritário de negociação
entre
capital e trabalho.
Internacionalmente,
a formação profissional foi e continua sendo
objeto estratégico de negociação.
Em países como
Alemanha, Itália e Espanha,
os acordos coletivos que promovem a
reciclagem profissional negociada acompanham a reestruturação produtiva desde
os anos 1970.
Sob a ótica do
Departamento Intersindical de Estatística e
Estudos Sócio-Econômicos (DIEESE), na agenda sindical, a abrangência da
educação profissional iria além das regras do mercado de trabalho:
seria uma
dimensão de cidadania do trabalhador (DIEESE, 1998).
Segundo
análise desse órgão representativo dos trabalhadores
(DIEESE, 1998), nos
últimos 60 anos,
o Brasil seguiu
o modelo internacional de formação
profissional tido como fordista, qualificando de forma competente um reduzido
grupo de profissionais.
A preparação para o trabalho era promovida por meio de
universidades, escolas técnicas, sindicatos, organizações não-governamentais e,
ainda, por entidades do Sistema S, como o Serviço
Nacional
de Aprendizagem Industrial (SENAI),
Serviço Nacional de Aprendizagem do
Comércio (SENAC),
Serviço Social do Comércio (SESC),
Serviço Nacional de
Aprendizagem em Transportes (SENAT).
Entretanto,
a partir da década de 1990,
a elevação das taxas de desemprego recolocou a
questão da formação profissional em termos das políticas públicas voltadas para
o mercado de trabalho brasileiro.
Conforme nota Pochmann (1998) ...um maior
apelo à educação profissional passou a ocorrer nos anos 90, quando o País
passou a contar com uma nova experiência de qualificação dos trabalhadores.
O
Plano Nacional de Educação Profissional (Planfor)
representa uma estratégia de
qualificação desenvolvida de forma descentralizada e em parceria com diversas
instituições, que têm o apoio financeiro do Fundo de Amparo ao Trabalhador
(FAT).
(POCHMANN, 1998, p.142).
O
autor ressalta, entretanto, que o País não possui tradição de acompanhamento de
resultados de políticas públicas, apontando para a ausência de informações que
possam servir como base para uma análise qualitativa da eficácia desses
resultados.
Ele aponta, ainda,
que se gasta no Brasil algo em torno de 0,5% do
PIB com educação
para o trabalho, num sistema que tem uma eficácia discutível.
Forma-se, por exemplo, sem saber onde há necessidade de profissionais
(POCHMANN, 1998).
O
debate da qualificação para o trabalho é ampliado para a discussão
não só da
necessidade de que o trabalhador
adquira novas competências para o mercado que
emerge,
mas para que possa ter a oportunidade de uma
“...educação integral [...]
para o trabalho e para a cidadania”
(RIBEIRO; TEIXEIRA, 1997, p.4).
Os autores
ressaltam que as discussões sobre
a relação entre competitividade e
qualificação da mão-de-obra
têm surgido com destaque entre diversos estudiosos
e acabam por convergir em alguns pontos como
“o reconhecimento da existência de
uma grande lacuna
entre as bases da educação tradicional e
os requisitos da
nova sociedade que emerge [...]”.
Reforçando
tal posicionamento, Lopes (1998, p.41)
afirma que a educação profissional - integrada
ao sistema educacional -,
mais do que um fator decisivo
na qualidade da
produção e na competitividade,
“é um instrumento básico e fundamental ao
exercício da cidadania,
pois milhões de trabalhadores
sequer decodificam os
símbolos elementares da escrita”.
De toda forma, as políticas educacionais,
fundamentais ao exercício de cidadania,
devem vir associadas também a políticas
de emprego
que possam fazer retornar ao cidadão seu direito ao trabalho e à
renda.
Barbosa
(2002) aponta,
sob esse aspecto, para a necessidade de discutir a articulação
entre políticas públicas de educação e trabalho como referência às práticas
organizacionais.
Isso
porque os modelos de competências sugerem uma reflexão sobre o papel que
exercem enquanto ferramentas de exclusão do indivíduo,
especialmente,
não
havendo uma ação articulada entre diversos atores
que se preocupe em que não
haja perdas para o trabalhador.
Nesse
sentido,
o autor sintetiza a questão contextual vinculada à transposição
de um
modelo empresarial pautado na qualificação para um baseado em competências.
Afirma,ainda,
referindo-se às transformações em curso nas organizações
e seu impacto sobre as
pessoas,
que desenvolveu-se
um novo enfoque do valor produtivo
do trabalho centrado no reconhecimento
de
que este precede em maior grau do potencial intelectual
da criatividade e menos
da capacidade de cumprir tarefas prescritas.
Nesse sentido,
a proposta de uma
nova lógica de formação e capacitação,
sintetizada no conceito de competência,
emerge como contraponto à noção corrente de qualificação
(BARBOSA, 2005, p.17).
Ainda
com relação à questão da qualificação, Fogaça (2004)
aponta para a necessidade
de desvincular a falta de qualificação ao desemprego.
Segundo a autora, existe,
de fato, no Brasil,
uma população de baixa escolaridade que, na maioria dos
casos,
não apresenta qualificação formal adequada para as funções e atividades
produtivas que eventualmente venham a exercer.
No entanto,
ela ressalta que
políticas de qualificação profissional
não são políticas de geração de emprego,
e estes dois aspectos devem ser analisados em separado,
não por serem
excludentes,
mas para não se estabelecerem visões equivocadas sobre
a relação
entre ambos.
De
acordo com Fogaça (2004), de alguma forma,
o discurso da ausência de educação
deu suporte às explicações para responder à crise do emprego.
Os indivíduos
foram nomeados como
responsáveis por não terem esse atributo – mais
escolaridade e, conseqüentemente, por não desenvolverem suas competências –,
ao
mesmo tempo em que
se tirou a responsabilidade da sociedade e do Estado e,
por
conseqüência, da política econômica.
Entretanto,
atribuir aos indivíduos o
sucesso no mercado de trabalho
apenas por seus anos de escolaridade
é negar as
relações sociais de produção.
Eles são, em última instância, agentes passivos,
pois quem determina o seu valor de uso é o capital.
Leite
(1997) reforça o argumento de que
a qualificação não pode ser compreendida como
uma alternativa exclusiva para a conquista de bons empregos no mercado de
trabalho,
mas, sim,
de uma mudança de postura de âmbito mais abrangente,
e que
precisa ser considerado enquanto representação
de uma nova perspectiva nas
relações de trabalho.
Fonte
Interfaces entre Qualificação, Trabalho e Certificação de Competências:
um
Debate em Aberto a partir da Análise das Diretrizes Curriculares Nacionais
Autoria:
Amyra Moyzes Sarsur, Simone Costa Nunes,
Maria Tereza Leme Fleury,
Allan
Claudius Queiroz Barbosa.
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