Os
Programas de Certificação em Outros Países:
experiências para a análise de
adequação
Muitas
empresas nos Estados Unidos, Europa e mais recentemente na América Latina, têm
incorporado a gestão de recursos humanos baseada
em competência como ferramenta
para melhorar a produtividade e manter um clima positivo nas relações com seus
empregados.
Processos
normalizados de competência já são difundidos na Inglaterra, Irlanda, Escócia,
Austrália e compõem um sistema nacional de formação e certificação.
Sua
principal característica tem sido a articulação entre distintas instituições de
formação e as necessidades das empresas, por meio da formação baseada nas
normas de competências VARGAS .
Merle reforça a tendência da certificação e validação de modelos de
competência, tendo em vista a Comunidade Econômica Européia.
Ele descreve as
principais preocupações com o sistema:
compatibilização de certificação, peso
da formação acadêmica, relação entre conhecimento prático e acadêmico, distinção prática/ensino, dificuldade de controle dos cursos.
O autor também
afirma que a lógica de titulação, como prevalece na França e foi destacada por
Chanlat , vai ter de co-existir com modelos mais flexíveis,
em que
a dissociação entre sistemas de formação e as normas operativas
sejam um
estímulo aos indivíduos a se oferecerem ao mercado pelo preço da demanda, sendo
necessário um maior diálogo entre as partes: mercado, empregados, Governo,
sindicatos, organizações, escolas e universidades.
O
processo de certificação na França é explicado ainda por
Dufour que
ressalta a necessidade de discutir a competência de acordo
com o contexto que
permite o exercício desta competência, o que, por sua vez, orienta a
certificação.
Esta é uma decisão nacional, o que explica a estrutura das
competências e as listas de referência.
Os ministérios têm monopólio da
certificação, o que garante validação nacional sobre os perfis de competência no território francês.
Além da garantia governamental, a partir das normas de
competência, é importante o reconhecimento social e o método de certificação
para validar as competências.
As
ferramentas utilizadas para mensurar as competências envolvem os exames dos
cursos, inclusive profissionais, para obtenção de diploma.
O desempenho
técnico, a participação no mundo do trabalho
pela experiência profissional, ainda que a competência não seja garantida pelo sistema de competências, são as
diferentes modalidades de competências naquele país .
Dufour não deixa de ressaltar as seguintes críticas:
(1) os altos custos do
processo de certificação;
(2) o fato de a responsabilidade recair sobre a
entidade certificadora;
(3) a necessidade de controles rígidos para a garantia
dos exames e sua validade por tempo determinado;
(4) a necessidade de avaliação
constante da competência, com um enfoque útil aos trabalhadores e empresas.
MODELO GERMÂNICO
Empresas participam do processo de formação
Título reconhecido
Título leva em conta experiência e formação contínua ao longo da vida profissional
Análise complexa
Participação dos sindicatos
Mercados estruturados
Modelo Inglês
National Vocational Qualification - NVQ
Escala nacional
Substitui descrição genérica das profissões
Baseado na tarefa
Similar ao mecanismo de identificação da qualidade
Independente da formação escolar
Validação por empresas e escolas autorizadas
Modelo Brasileiro
Empresas participam por meio do Sistema S
O governo participa na normalização da formação escolar
Participação dos sindicatos incipiente
Estratégia de consolidação de um modelo
Parceria entre sindicato, empresas, universidade e
Governo em articulação
No
caso brasileiro, ainda que não se trate de um modelo consolidado como nos
demais países, destacam-se as ações do Senai com os chamados
Projetos Estratégicos
Nacionais
“Competências:
Formação Profissional” e “Competências: Certificação Profissional”
(SENAI,
2002); o Sistema Nacional de Certificação Profissional que deu início às
condições jurídicas para a certificação profissional, por meio da LDB, lançado
em 1996 pelo Governo Federal (BRASIL, 1996, 2005a);
o “Programa Integrar”, projeto desenvolvido pela Confederação Nacional dos Metalúrgicos (CNM)/Central
Única dos Trabalhadores (CUT),
com a colaboração da Universidade (Rede
Unitrabalho e COPPE/UFRJ)
e DIEESE, apoio do Ministério do Trabalho (MTb), mediante recursos do FAT, e discussão com setores empresariais sobre formação
profissional, tendo como uma de suas grandes preocupações a educação dos
trabalhadores (PERROTTA et al., 2003).
Barbosa ressalta a pouca observância, por parte das empresas, quanto à
certificação das competências no Brasil.
Esse ponto “considerado fundamental na
raiz da formulação das competências em seus primórdios, acaba por não se
mostrar capaz de garantir ao empregado
o domínio sobre o seu saber fazer.”
Ou
seja, a competência acaba sendo apropriada pela empresa impedindo que o
trabalhador possa agregar ao seu “portfólio” profissional aquilo que executa.
O
modelo canadense é discutido por Barato que destaca, de início, a
significativa relação educação/trabalho e o modo de utilização do conceito de
competências essenciais.
A partir do projeto Making the Match na década de
1980, pesquisam-se as habilidades gerais de criatividade, liderança, comunicação oral e escrita,
e capacidade de tomar decisão.
Como resultado
desenvolve-se o projeto com foco em habilidades específicas e competências
essenciais demandadas para o mercado de trabalho,
inicialmente envolvendo
dezesseis universidades canadenses, para suprir o descompasso entre os
conteúdos universitários e as habilidades demandadas pelo mercado.
Barato aponta, ainda, para uma questão
“relacionada com uma das
finalidades sociais da educação:
qualificar adequadamente as pessoas para um
trabalho produtivo”.
A perspectiva do autor é que a dimensão social exigida
pela população
da universidade supera a lógica utilitarista, o que permitiu uma
participação mais ampla da sociedade e suas instituições no processo.
Com isso
instrumentaliza-se a universidade para atender à sociedade com o
desenvolvimento de competências básicas, a partir de um quadro de referências.
O projeto canadense também permite uma avaliação das ações da universidade, que
deve “desenvolver capacidades de articular de modo produtivo informação,
conhecimento e desempenho” BARATO.
A
pluralidade canadense deve ser entendida de forma ampla, pois
“o conceito de
competência não é necessariamente a única alternativa
para alcançar bons
resultados em programas de capacitação para o trabalho”, conforme bem lembra
Barato .
Aliam- se à
descrição de competências os exames nacionais de certificação
e o desenho de
currículos, que a partir de novas pesquisas e entendimento da avaliação
participativa,são modificados, sempre voltados para resultados.
O
estudo de Rochow (1999), em rápida retrospectiva sobre a formação do sistema de
competências canadenses, destaca o processo de Designing a Curriculum
- DACUM
que, desde o final da década de 1960,
vem sendo aperfeiçoado.
Ressalta-se ainda
a participação do governo em estruturar o sistema,
para delinear a participação
dos principais atores envolvidos e definir as condições dessa participação, realizando a fiscalização do processo.
Participam junto com o governo, os
empresários e trabalhadores
com destacada atuação,
apesar dos conflitos
advindos das posições exercidas,
ora pela baixa voz dos trabalhadores,
ora pela
dificuldade de escolha dos representantes dos empresários.
O DACUM, no caso
brasileiro, foi utilizado como parte da metodologia no trabalho da revisão do
Código Brasileiro de Ocupações (CBO).
Mertens destaca as metodologias de desenvolvimento de currículo,
nos moldes do
DACUM, caracterizado por uma conexão orgânica com a norma de competência,
expressa em critérios de desempenho, e a construção do currículo que deve
conduzir o cumprimento daquela competência.
Este instrumento simplifica o
processo de definição da norma, a construção do currículo, a capacitação ou formação
baseada nele, e a avaliação e certificação.
Oriundo
do Canadá, conforme destacado no texto de Rochow , este modelo foi
difundido para outros países.
Há
que se ressaltar nos processos de certificação, as diversas aproximações entre
trabalho, educação e competência que são exigidas.
Conforme destaca Barbosa , na Inglaterra, o desenvolvimento de um sistema nacional de certificação e sua aproximação ao mercado de trabalho dão uma conotação mais operacional ao
conceito.
Na França, a noção de competência está diretamente relacionada a uma
educação sistemática.
Mas, em ambas as situações,há uma clara sinalização de
que existe vínculo entre educação e trabalho BARBOSA.
No
modelo de competências, portanto,não se ignora a preocupação com a formação
escolar tradicional, mas o elemento central de determinação da competência
passa pela possibilidade do aprendizado permanente do trabalhador, e das
respostas que dá em termos de sua atuação individual.
Sob essa perspectiva, as
negociações, antes voltadas para ganhos coletivos, passam a ocorrer de forma
individualizada.
Além disso, as organizações passam a ser um local passível de
aprendizagem,
ou seja, são consideradas como espaço de desenvolvimento deste
conhecimento tácito, podendo ou não atender à demanda dos trabalhadores
pelo seu processo de crescimento.
E, ainda, caracterizando-se como relevante
parceira no processo de certificação das competências profissionais.
Fonte :Interfaces entre Qualificação, Trabalho e Certificação de Competências: um
Debate em Aberto a partir da Análise das Diretrizes Curriculares Nacionais
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