3 de out de 2017

Educação interprofissional na formação : tecendo redes de práticas e saberes

Ler e aprender com o artigo ‘Why we need interprofessional educational to improve the delivery of save and effective care’, do professor Scott Reeves revela-se uma oportunidade singular de trocar, ampliar olhares e projetar novos caminhos para a formação de profissionais de saúde melhor preparados para práticas compartilhadas, resultante de um trabalho em equipe comprometido com a integralidade no cuidado.
 Como educadores do campo da saúde, envolvidos em uma experiência de formação interprofissional em um campus de expansão de uma universidade pública federal da região sudeste, suas palavras e provocações nos inspiram ao debate sobre uma formação coadunada com o Sistema Único de Saúde, na defesa da vida e de uma educação emancipatória. 
A partir deste lugar, educadores inseridos e co-partícipes de uma proposta de formação em saúde fundamentada na educação interpofissional(c),e tal qual o garimpeiro que vai em busca de indícios de terras preciosas, percorremos o texto com o olhar atento de quem encontra significado em cada tópico e com uma atenção flutuante de quem se imbrica com os argumentos, os estranha e, dialeticamente, os reconhece como familiares.
 Reeves analisa as experiências de educação interprofissional (EIP) no modelo de formação em saúde constituído por duas etapas: a de pré e a de pós qualificação, exploradas no Brasil por universidades do Estado da Bahia, mas ainda pouco conhecida na maioria das instituições de ensino superior do país, constituída pelos projetos de bacharelado interdisciplinar em saúde e profissionalização específica a posteriori. 
O autor salienta os potenciais e os limites destas experiências nas duas etapas, reconhecendo sua pertinência na fase de pré qualificação (os Bacharelados Interdisciplinares)  e a possibilidade de reforço e aprofundamento na etapa pós qualificação (a profissionalização específica). Enfatiza pontos bastante relatados na literatura internacional sobre os benefícios da EIP como a prontidão(d) dos estudantes e a redução de posturas estereotipadas e muitas vezes hostis entre as profissões. 
A vivência de aprendizagens interativas na EIP é reconhecida como promotora do desenvolvimento de competências para a prática colaborativa. 
Concordamos plenamente com o autor quando adverte a importância de que estas experiências sejam tomadas como curriculares, evitando classificá-las como optativas e, assim, vistas como de menor importância na formação do futuro profissional. 
Um desafio enfatizado refere-se ao lugar do docente:
 Reeves destaca a relevância da competência do professor como mediador nas situações de aprendizagem ancoradas na EIP. Esta competência abrange um conjunto de dimensões que vão desde as experiências prévias, a intencionalidade para o trabalho em grupo interprofissional, a flexibilidade e a criatividade para vivenciar as situações de maneira compartilhada com os estudantes, até o envolvimento e compromisso docente com a EIP.
 A mediação docente nesta perspectiva inscreve, assim, uma concreta demanda por desenvolvimento docente, situando-o como um eixo central frente às experiências de inovação educativa, ao complexo processo de discutir as identidades profissionais na formação e à potência de espaços de troca de saberes e práticas entre os professores. Configura-se, desta maneira, um desenvolvimento docente que, em sua realização e materialidade,  caracteriza-se, também,  como uma experiência interprofissional: colaborativa, significativa, interativa e produtora de saberes compartilhados.
 O desenvolvimento docente evidencia-se nas experiências nacionais também como nuclear: os estudos(e) trazem como elementos estruturantes a necessidade de construção de uma docência em comum, agregando professores com diferentes formações e profissões, bem como a importância da formação do professor em ambientes interprofissionais. Aprende-se a ensinar na perspectiva da EIP, ensinando e refletindo sobre as experiências, construindo saberes, estratégias e projetos coletivos. 
Há resistências docentes em propostas de EIP e superá-las demanda não somente movimentos dos professores em seus processos de aprendizagem sobre a docência, mas implica, fortemente, na garantia de suporte institucional por meio de políticas de financiamento e valorização da docência interprofissional, comprometida com uma formação em saúde baseada na integralidade do cuidado.
 Faz-se importante a criação de uma cultura acadêmica que situe as práticas colaborativas e compartilhadas entre os professores como práxis universitária, alterando as lógicas de trabalho isolado, regido por méritos estritos da publicação e que localizam as profissões como ofícios pensados em si mesmos. 
Neste processo, a referência dada às práticas avaliativas merece um olhar atento: que projetos e propostas de avaliação articulam-se com a perspectiva da interprofissionalidade? A avaliação como processo-projeto de interlocução crítica, de elaboração coletiva de indicadores e parâmetros, de registro das experiências em suas dimensões descritivas e, também, em suas dimensões simbólicas, de possibilidades de combinação de diferentes instrumentos e estratégias possibilitando desvelar diferentes olhares e percepções. Inscreve-se a avaliação como uma das âncoras de sustentabilidade da EIP e, igualmente, apresenta-se o desafio de construção de métricas avaliativas que promovam autonomia e empoderamento. Na direção de sistematizar um conjunto de informações, achados e conclusões sobre a EIP, Reeves apresenta uma análise crítica sobre as evidências científica e a qualidade dos trabalhos publicados sobre a temática, reunidos em seis revisões sistemáticas envolvendo mais de duzentas pesquisas realizadas nas últimas três décadas. As convergências identificadas em torno das concepções de EIP, da combinação de diferentes estratégias de aprendizagem, da ênfase à avaliação formativa, parecem sinalizar uma compreensão mais consistente e coerente nas experiências de educação interprofissional. A análise crítica das pesquisas que avaliam as experiências de EIP selecionadas nas revisões sistemáticas permite uma visualização instigante :
 (1) a maioria das experiências pesquisadas tem uma curta duração (entre um e cinco dias) e são descritas de maneira muito sumárias; 
(2) as limitações metodológicas são pouco exploradas; 
(3) a maioria dos estudos avaliam os impactos da EIP a curto prazo; 
(4) o dimensionamento das mudanças produzidas nas práticas profissionais ainda carece de um número muito maior de pesquisas; 
(5) as vozes dos estudantes sobre percepções positivas ao final de uma experiência de EIP emergem como privilegiadas na maioria dos estudos; 
(6) investigação de modificação de comportamento traduzido na prática, mudança organizacional e repercussão na melhoria da assistência ainda são pouco exploradas. Apesar dessas limitações, Reeves aponta para uma tendência atual de melhoria na qualidade dos estudos relacionados com a EIP no mundo. 
Nestes movimentos de entender, implicar-se, projetar e dialogar propostos por Reeves, encontramos na perspectiva da rede uma ancoragem teórico-metodológica para buscar articular e trançar as dimensões discutidas no texto. Rede compreendida como espaço de circulação simbólica nas interações  que incorpora constituintes individuais e sociais em uma dialética que se inscreve em dado lugar e tempo. 
E assim, movimentos grupais e movimentos institucionais tecem modos de fazer a educação interprofissional em saúde. Neste âmbito, uma resposta possível à questão-título proposta por Reeves insere-se, a partir de nossas leituras e experiências, em porques que acreditamos, na realidade brasileira, inspirados nas ideias de Paulo Freire, na consolidação do Sistema Único de Saúde e na integração ensino/serviço  a EIP (des) revela uma potência de sintonia com as demandas sociais. 
  Manoel de Barros faz uma afirmação e um convite:
[...] A expressão reta não sonha. Não use o traço acostumado. O olho vê, a lembrança revê, a imaginação transvê. É preciso transver o mundo. Isto seja: Deus deu a forma. 
Os artistas desformam. É preciso desformar o mundo: Tirar da natureza as naturalidades. Fazer cavalo verde, por exemplo. Agora é só puxar o alarme do silêncio que eu saio por aí a desformar [...]. (p. 75)
 Nossa aposta, reforçada com o diálogo com Scott Reeves, é que a EIP possa ser um instrumento formativo que nos provoque a fazer cavalos verdes na formação em saúde.
Nildo Alves Batista e Sylvia Helena Souza da Silva Batista

Nenhum comentário:

Postar um comentário